Como Datena pode embolar a corrida eleitoral de 2016

datenaSão Paulo – As eleições de 2016 para a prefeitura de São Paulo prometem ser uma das mais equilibradas dos últimos anos. Serão ao menos cinco candidatos de grande repercussão, pulverizando bastante a preferência do eleitorado.

Além do prefeito Fernando Haddad (PT), que deve concorrer à reeleição, nomes como o deputado federal Celso Russomanno (PRB) e Marta Suplicy (Sem partido) já aparecem como certos para o pleito.

Na terça, outro nome conhecido somou-se ao jogo: o apresentador da TV Bandeirantes, José Luiz Datena, como pré-candidato do PP. Ainda é esperado um candidato próprio ainda desconhecido do PSDB - o apresentador João Dória é dos que estão pleiteando a vaga.

Há mais de um ano do pleito e sem pesquisas de intenção de voto realizadas, ainda é difícil traçar panoramas do desenrolar da campanha do ano que vem. Mas analistas políticos consultados por EXAME.com avaliaram como a decisão de Datena — caso se lance candidato de fato — afeta o já complexo tabuleiro da corrida pela prefeitura paulistana.

Afinal, Datena tem chances de virar prefeito?

Datena entra na categoria de “políticos-celebridade”, com base eleitoral formada pelos fãs e rosto conhecido. “Digamos que ele é alguém que traz mais retórica do que um projeto concreto”, diz Marco Antonio Teixeira, professor do departamento de Gestão Pública da FGV de São Paulo.

Os eleitores que também são fãs materializam um percentual de público que é cativo no início de campanha, mas que pode desanimar e fugir para outras opções, caso o candidato não sustente suas propostas ou as mantenha no campo genérico, sem aprofundamento.

Foi o que aconteceu com o Celso Russomanno (PRB) na disputa pela prefeitura de 2012. Grande estrela das primeiras sondagens de voto, o apresentador amargurou a queda nas pesquisas e ficou de fora até do segundo turno das eleições de 2012 exatamente por causa desse fenômeno.

A partir do momento que José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) apareceram em campanhas e debates argumentando contra programas de Russomanno, o eleitorado foi pendendo para longe.

“A dinâmica da eleição no Legislativo, em que Russomanno foi eleito tantas vezes, é muito diferente do Executivo. A trajetória do candidato e o respaldo do partido fazem toda a diferença”, afirma Rodrigo Prando, sociólogo do Mackenzie. “Enquanto o Russomanno tinha um partido desestruturado em São Paulo, o Haddad tinha apoio do ex-presidente Lula.”

Datena não se mostra como unanimidade nem dentro do PP. O grande ícone do partido, Paulo Maluf, já se colocou contra a pré-candidatura do apresentador, em apoio a continuidade do acordo firmado com Haddad em 2012.

Para fugir dessa situação, o desafio de Datena é manter uma agenda propositiva e articular apoio de partidos simpatizantes.

“Ele tem projeção e deve cuidar bem do que fala para que a expectativa não fique muito maior que o que ele pode entregar de forma concreta. Criar contradições é o caminho do fracasso”, afirma Teixeira, da FGV.

Para o pesquisador, a pré-campanha de Datena já começou mal. "Uma das ênfases dele é martelar a corrupção, mas vai para um partido que tem boa parte dos deputados ligados às investigações na Operação Lava Jato.”

Como Datena pode impactar a disputa?

Ainda é difícil dizer se o papel de Datena na disputa pode ser relevante. Seu duelo direto, provavelmente, será com Celso Russomanno (PRB) e com o futuro candidato indicado pelo PSDB (até agora, os indícios mais fortes apontam o nome do vereador Andrea Matarazzo como possível candidato tucano).

Os três pretendem tirar proveito de um público mais conservador e de uma onda crescente de antipetismo presente no município.

Como candidato, no entanto, Datena pulveriza toda a preferência desse público dando margem para crescimento de Marta Suplicy e Fernando Haddad. “Datena entra mais para tumultuar esse meio de campo”, diz Prando.

Mas caso Marta e Haddad entrem em choque pelo mesmo eleitorado, Datena pode chegar ao segundo turno. “Ele é um candidato receptivo aos eleitores antipetistas e que pretendem dar um voto de protesto, como aconteceu com Tiririca”, afirma Pedro Fassoni Arruda, professor do departamento de política da PUC-SP.

“O que vemos até agora é que se trata do que chamamos de ‘balão de ensaio’. De acordo com a repercussão dessa pré-candidatura é que vai se decidir se ele segue no processo”, diz.

O resultado

As conclusões são prematuras e levam em conta o atual cenário político da cidade.

Por conta de resquícios da eleição nacional, a análise da maior parte dos especialistas é que grandes chances de a eleição ficar polarizada novamente entre PT e PSDB.

Com coligações bem estruturadas, tempo no horário eleitoral gratuito e figuras de peso dentro do âmbito político, a agenda propositiva de tucanos e petistas deve fica mais forte. Datena e, mais uma vez, Russomanno correm por fora, segundo os analistas.

A figura que pode ser o fiel da balança e pode despontar é Marta Suplicy. A senadora tem eleitorado cativo em regiões da cidade, simpatia de eleitores petistas e, ao mesmo tempo, podendo fazer sua agenda fora do partido que cresce em rejeição na cidade. Não é a toa que sua filiação é tão disputada.

Se mantiver o perfil esquentado que se vê na televisão e se quiser se apoiar em pautas genéricas, Datena está fadado a ser coadjuvante.

Fonte: Exame

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